Além da Sustentabilidade? - Estamos vivendo no Século da Regeneração.

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Em seu livro “Designing Regenerative Cultures”, o autor e consultor estratégico Daniel Christian Wahl explora as implicâncias do momento de intensas transformações que vivemos; como podemos encontrar inspiração em nossa própria essencial Natural para devir neste contexto; e reune exemplos de práticas que já estão regenerando e transformando ambientes pelo mundo.

Durante o final de Março de 2019 Daniel estará no Brasil para uma série de atividades e workshops facilitadas pelo cluster de Design Regenerativo. E juntamente com a vinda do Daniel, a Bambual Editora está viabilizando a tradução de seu livro para o Português, permitindo que suas ideias se espalhem ainda mais por aqui.

Alguns dos textos que compõem o livro, como este, foram traduzidos como publicações no Emergir e estão sendo publicados como forma de animar e energizar ainda mais essa vinda dele e a viabilização do seu livro em Português 🦋 Usaremos a #danielwahlnobr nas redes sociais para marcar essa agitação.

Texto traduzido por Lara Bach em junho 2018. Para acessar a versão original, clique neste link.


“Valorizar Função Ecossistêmica mais do que as coisas materiais é a mudança de paradigma que determina se entendemos o significado de nossas vidas e sobrevivemos ou se permanecemos ignorantes e egoístas e destruímos nosso próprio habitat tentando obter mais riqueza ou mais poder. Se alcançarmos este nível de entendimento, não somente todos poderão viver na Terra, mas os sistemas naturais da Terra poderão alcançar sua capacidade ideal de sustentar a vida.”

  • John D. Liu (2016)

Existem alguns profissionais que trabalham com sustentabilidade e possuem uma mentalidade de desenvolvimento regenerativo. Existem duas razões pelas quais eu diria que é hora de ir além da sustentabilidade: por um lado, o próprio termo foi cooptado, e algumas pessoas agora consideram sua empresa sustentável apenas porque sustentaram o crescimento e os lucros por vários anos seguidos. O termo sustentabilidade exige que expliquemos o que estamos tentando sustentar.

O termo “desenvolvimento regenerativo”, por outro lado, traz consigo um objetivo claro de regenerar a saúde e a vitalidade dos sistemas aninhados e escalarmente-conectados dos quais participamos. Em um nível básico, a regeneração também implica não usar recursos que não podem ser regenerados, nem usar quaisquer recursos mais rapidamente do que eles podem ser regenerados. Desenvolvimento, neste contexto, é “co-evoluir mutuamente” (Regenesis Group) - assim, desenvolvimento biológico e cultural que evolutivo, não no sentido de desenvolvimento econômico (apenas).

A segunda razão é que eu acredito que precisamos de uma ressignificação que honre a importância de chegar ao “sustentável” enquanto abrimos a possibilidade de aprofundar nossa prática, indo além de ser apenas sustentável, para regenerar o dano que a humanidade impôs no planeta desde o início da agricultura, cidades-estados, e impérios.

É possível pensar no caminho para o desenvolvimento regenerativo como um espectro que inclui e transcende a sustentabilidade. Eu me deparei com isso em um artigo do meu amigo Bill Reed, intitulado “Shifting our Mental Models”, de 2006. Bill descreveu uma jornada que começa no que você poderia chamar de “business as usual” (práticas tradicionais de negócio) - basicamente, não infringir a lei, e apenas prejudicar os ecossistemas e sociedades dentro dos limites estabelecidos por órgãos reguladores.

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O framework de design regenerativo. Primeiro quadrante: Abordagem de sistemas vivos guia o design e a inovação, Colaboração cria abundância, Criando condições condutivas à vida. Segundo quadrante: Sistema se regenerando, Vitalidade do sistema aumenta, Abordagem regenerativa diminui uso de energia. Terceiro quadrante: Abordagem exploratória aumenta uso de energia, Vitalidade do sistema diminui, Sistema se degenerando. Quarto quadrante: Criando condições degenerativas, Competição cria escassez, Abordagem fragmentada de design e inovação. Lista lateral: Regenerativo - participação e design da natureza. Reconciliador - reintegrar seres humanos como partes integrais da natureza. Restaurativo - seres humanos fazendo coisas à natureza. Sustentável - ponto neutro, nenhum dano extra. Verde - melhorias relativas. Prática convencional: complacentes para evitar ações legais.

Este diagrama foi adaptado de uma versão anterior pelo Bill Reed e é baseado em seu trabalho com Carol Sanford e seus colegas do Regenesis Group. Eu mudei algumas das palavras e adicionei conteúdo. A escrita verde e vermelha acima e abaixo do eixo X não está se referindo ao quadrante em que está, mas simplesmente ao impacto positivo (verde) e impacto negativo (vermelho). Este gráfico é reproduzido com permissão de Bill Reed no meu livro de 2016, “Designing Regenerative Cultures

A partir do “business as usual”, transitamos para o “verde” - fazendo um pouco mais do que legalmente precisamos fazer ao poluir um pouco menos, usando menos energia de fontes não renováveis, etc. Este é um passo que é frequentemente abusado em práticas de “banho verde”, mas ainda assim é um passo necessário na jornada. Então, chegamos ao sustentável, ao ponto de impacto neutro, sem causar nenhum dano adicional. No entanto, causamos tantos danos desde a revolução industrial que precisamos fazer mais do que isso se quisermos sustentar uma população humana de mais de 9 bilhões, possivelmente 11 bilhões, até a metade do século.

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Platô de Loess na China - Fonte

À medida que nos movemos para além da sustentabilidade e começamos a trabalhar na restauração de ecossistemas danificados, é possível fazer isso com a mentalidade que vê a humanidade como senhores e manipuladores da natureza, ao invés de participantes dos processos de sustentação da vida. Essa mentalidade engenheira em relação à restauração pode primeiramente criar projetos que restauram florestas e ecossistemas, mas de maneiras que não são sistêmicas e integrativas, e, portanto, seus esforços e efeitos podem ter vida curta, ou resultar em efeitos colaterais inesperados e negativos.

Se projetos de restauração em grande escala não emergirem, ou, pelo menos, não se basearem em uma adaptação cuidadosa à singularidade biocultural de cada lugar, eles poderão gerar sucessos a curto prazo, mas irão falhar em criar significado suficiente para motivar participação a longo prazo.

Este vídeo de 90 segundos foi produzido pela equipe de mídia do IED, em Madri, enquanto eu dei um workshop para o Mestrado em Design e Inovação do IED em 2015.

O desenvolvimento regenerativo revela o potencial latente de um lugar ao conectar o sistema a si mesmo e ao contexto escalar-interconectado ao qual ele esta aninhado. Parte dessa tecelagem de conexões é sobre o diálogo de múltiplos atores, ou a reconciliação de diferentes perspectivas em um nível sistêmico mais elevado, de maneiras que criam soluções ganha-ganha-ganha para toda a vida naquele lugar.

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Platô de Loess na China - Fonte

Somente quando reconciliarmos a natureza e a cultura, e nos entendermos como parte da jornada evolucionária da vida e como participantes nos processos de sustentação da vida, estaremos começando a trabalhar de forma regenerativa. Como Vida, nós somos capazes de criar condições conducentes à vida. Este é o nosso verdadeiro trabalho!

A regeneração de ecossistemas em grande escala para reverter o aquecimento global, estabilizar o clima, e possibilitar a transição para uma economia baseada em biomateriais, com padrões de produção e consumo descentralizados regionalmente, é um caminho para a regeneração socioeconômica, resiliência, subsidiariedade e colaboração global para aprender a conviver bem - juntos - na nossa “nave espacial” Terra.

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Projeto de Permacultura no Vale do Jordão - Fonte

Regenerar a biosfera é uma necessidade urgente, e pode se transformar em uma visão compartilhada grande o suficiente para unir a humanidade em toda a sua diversidade. Somos chamados a fazer parte de um processo de amadurecimento de nossa própria espécie, e de nos tornarmos membros responsáveis da comunidade da vida.

O século XXI será o século do ecossistema e da regeneração da Terra; caso contrário, o século XX11 poderá ver um planeta muito empobrecido sem a nossa presença.

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Antes e depois. Manila, Filipinas - regeneração hidroviária pela Biomatrix Water - Fonte - veja também esse vídeo

A evolução prossegue pela diversificação e subsequente integração dessa diversidade em níveis mais altos de complexidade. A integração ocorre predominantemente através de processos colaborativos que aumentam a saúde de todo o sistema.

A humanidade trouxe toda a comunidade de seres vivos à beira da sexta grande extinção da vida na Terra; inverter esta tendência e criar um mundo mais saudável e abundante juntos podería oferecer um significado compartilhado que nos ajude a reformular a nossa diversidade como uma fonte de criatividade e resiliência, e encontrar um terreno comum como uma família humana em um planeta frágil. Trabalhar de forma regenerativa é trabalhar com o potencial inerente dos sistemas vivos - humanos e o resto da natureza - para desenvolver níveis mais altos de sinergia, simbiose, e mutualidade co-evolutiva.

“A Terra precisa ter o potencial de alcançar um ‘Clímax de Equilíbrio Evolucionário’. Isso significa que o solo, os oceanos, as plantas, os animais, a atmosfera, o ciclo da água, e o clima da Terra podem interagir de uma forma natural, sem interferência humana. Se estivermos conscientes disso e não interferirmos nos Sistemas Terrestres, isso é possível. Conhecimento é responsabilidade. Saber que os sistemas da Terra são sistemas vivos simbióticos significa saber que é nossa escolha restaurar a Terra ou continuar fingindo que nossos interesses são diferentes daqueles de todas as coisas vivas.”

  • John D. Liu (2016)

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Figura: A visão de Michael Sorkin em relação a um “curso estável de Nova York”, Venice Bienalle de 2010 (Reproduzido com permissão de Terreform Inc.) Ilustração de “Designing Regenerative Cultures

Em suma, o desenvolvimento regenerativo visa otimizar todo o sistema para todos os seus participantes, em vez de maximizar parâmetros individuais para alguns em detrimento de muitos. Ele vai além de não apenas prejudicar, regenerando funções ecossistêmicas saudáveis, solos, florestas, e cursos d’água; ele regenera a coesão social e a solidariedade global, e estimula comunidades prósperas e economias regionais na colaboração global.

É hora de fazer sua parte neste trabalho de importância civilizatória. Vamos nos unir para a cura da Terra e dos seus povos. Vamos nos assegurar de que a época atual, enquanto transitamos da era do império para a era planetária, seja lembrada como o século da regeneração!

A abordagem dos “4 Retornos” desenvolvida por Willem Ferwerda e pela Commonland Foundation está criando um caminho viável para iniciar este trabalho importante.


Daniel Christian Wahl trabalha internacionalmente como consultor e educador em design de sistemas regenerativos e inovação transformadora. Ele possui graduação em biologia (Univ. De Edimburgo/Univ. Da Califórnia) e Ciência Holística (Schumacher College), e sua tese de doutorado em 2006 (Univ. Of Dundee) foi em Design for Human and Planetary Health. Ele foi diretor do Findhorn College entre 2007 e 2010, e é membro do International Futures Forum, da RSA, da Findhorn Foundation Fellow e do Evolutionary Leaders Circle. Daniel participa do conselho consultivo da Ojai Foundation e da Ecosystem Restoration Camps Foundation. Seus clientes incluíram UNITAR (com CIFAL Escócia), UK Foresight (com Decision Integrity Ltd), Ecover (com Forum for the Future), Bioneers (com a Progressio Foundation e com a Findhorn Foundation), a Dubai Futures Foundation (com Tellart), o The Commonwealth Secretariat (com a Cloudburst Foundation), a Gaia Education, a Global Ecovillage Network, o State of the World Forum, Balears.t, Camper, LUSH, e muitas ONGs educacionais, universidades, e escolas de design. Ele é co-fundador da Biomimicry Iberia (2012), e colabora com o “SmartUIB” na Universidade das Ilhas Baleares desde 2014. Daniel trabalha meio período como “Chefe de Design & Inovação” da Gaia Education desde 2015. Seu livro mais recente Designing Regenerative Cultures, publicado pela Triarchy Press no Reino Unido em maio de 2016, já ganhou reconhecimento internacional, e seu blog no Medium tem um grande número de leitores internacionais.


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