Regenerando saúde, significado e riqueza verdadeira: Biomimética Sistêmica

8 minuto(s) de leitura

Em seu livro “Designing Regenerative Cultures”, o autor e consultor estratégico Daniel Christian Wahl explora as implicâncias do momento de intensas transformações que vivemos; como podemos encontrar inspiração em nossa própria essencial Natural para devir neste contexto; e reune exemplos de práticas que já estão regenerando e transformando ambientes pelo mundo.

Durante o final de Março de 2019 Daniel estará no Brasil para uma série de atividades e workshops facilitadas pelo cluster de Design Regenerativo. E juntamente com a vinda do Daniel, a Bambual Editora está viabilizando a tradução de seu livro para o Português, permitindo que suas ideias se espalhem ainda mais por aqui.

Alguns dos textos que compõem o livro, como este, foram traduzidos como publicações no Emergir e estão sendo publicados como forma de animar e energizar ainda mais essa vinda dele e a viabilização do seu livro em Português 🦋 Usaremos a #danielwahlnobr nas redes sociais para marcar essa agitação.

Texto traduzido por Lara Bach em junho 2018. Para acessar a versão original, clique neste link.


Temos muito a aprender com a ingenuidade do resto da natureza. Como a co-fundadora do Instituto de Biomimética, Janine Benyus, gosta de dizer que “a Vida tem uma vantagem de 3,8 bilhões de anos em pesquisa e desenvolvimento.” Podemos iniciar uma era de inovações transformadoras profundas se aplicarmos as maneiras engenhosas pelas quais a Vida tem encontrado soluções para muitos problemas que enfrentamos.

A Biomimética e o Design Bio-Inspirado demonstraram que podem inovar soluções mais sustentáveis com base no aprendizado por (através de) outros organismos e suas interações. Essas inovações vão desde colas não tóxicas, superfícies antibacterianas, economia de energia por meio da adaptação de dispositivos de transporte à dinâmicas referentes ao ar e fluidos, e ainda mais importante a otimização de sistemas inteiros por meio de integração sinérgica de diversidade a nível de ecossistemas.

As duas primeiras décadas de biomimética testemunharam um enorme aumento de patentes e tecnologias biomiméticas nas áreas de design de produtos e processos. Passamos agora a aplicar os princípios e as lições da Vida ao projeto de sistemas completos na escala de cidades e regiões inteiras.

O insight central da biomimética é que “a Vida cria condições conducentes (de “condução”) à Vida” (Janine Benyus). A promessa central do desenvolvimento regenerativo é que, aprendendo com os ecossistemas e compreendendo a nós mesmos - seres humanos - como parte da natureza e participantes da Vida como um processo planetário, também podemos criar diversas culturas regenerativas que criam condições conducentes à Vida. Podemos curar os ecossistemas que danificamos, regenerar florestas, solos, oceanos e cursos de água e criar um futuro para a humanidade como uma espécie regeneradora de raízes e stewards de ecossistemas e saúde planetária.

Re-conectando com a Natureza?

Reconectar-se com a natureza é principalmente deixar de lado uma suposição errônea de que somos supostamente separados dela. Não podemos perder essa conexão porque somos a natureza. Por muito tempo nossa narrativa culturalmente dominante separou natureza e cultura, mente e corpo, eu e mundo, e essa história não nos serve mais. Chegamos a acreditar que estamos de alguma forma separados da natureza, mas como seres biológicos e participantes da Vida como um processo planetário, dependemos criticamente de funções saudáveis dos ecossistemas e dos sistemas de suporte à Vida da biosfera.

O maior desafio está em nossas cabeças. Como disse Einstein, não podemos resolver os problemas que enfrentamos com a mesma mentalidade que os criou em primeiro lugar. Como Fritjof Capra expressou tão bem, a montante da crise ecológica, social e econômica do mundo está uma crise única, uma crise de percepção e consciência. Precisamos mudar a narrativa norteadora de nossa cultura, uma história de separação para uma história de interdependência e interconexão.

Tecnologia que serve ou serviço à tecnologia?

Nós passamos a acreditar que tudo pode ser resolvido com a inovação de tecnologias melhores e mais avançadas. Embora a inovação tecnológica possa certamente nos ajudar a melhorar muitas coisas, precisamos ter certeza de que criamos tecnologias que realmente sirvam à humanidade, e não o contrário. Corremos o risco de criar uma distopia tecnológica se não tivermos um diálogo ético mais profundo sobre quais tecnologias desenvolver e quais tecnologias restringir ou mesmo banir.

Já que nós nunca estivemos separados da natureza - e a separação percebida está apenas em nossa mente - nós não precisamos de tecnologia para “reconectar”. Tudo o que precisamos fazer é voltar para nossos corpos e passar algum tempo em um parque ou ainda melhor em uma floresta ou deserto. A solidão na natureza é uma maneira de voltar para casa - voltando à Vida.

O poeta e cientista alemão Johann Wolfgang von Goethe disse que “quem não vê a Natureza em toda parte não A vê em lugar algum na luz certa”. A partir dessa perspectiva, até mesmo nossas megacidades são Natureza. Nós só precisamos nos perguntar se elas são adaptações evolutivas viáveis que criam condições propícias à Vida ou “ruas sem saídas” mal-adaptativas na exploração evolucionária da criatividade e da novidade. Precisamos começar a redesenhar nossas cidades para refletir a percepção de nossa co-dependência das funções de ecossistemas saudáveis e dos sistemas planetários de suporte à Vida da biosfera.

Negócios como agentes de inovação transformadora?

Seria um bom exercício nos perguntar que tipo de estruturas e atividades corporativas realmente servem à Humanidade e à comunidade mais ampla da Vida? Podemos criar corporações que sigam a lição básica da biomimética? Podemos criar corporações que criem condições conducentes à Vida?

Uma vez que fizermos isso e almejarmos nos tornar humildes aprendizes da Natureza, teremos que explorar o que pode ser uma escala apropriada e como podemos adaptar as atividades corporativas à singularidade biocultural do lugar. A globalização nos trouxe muitos benefícios, mas também erodiu as economias regionais.

À medida que começamos a prestar atenção em como a natureza produz - Na Região, Para a Região, com recursos regenerados localmente e energia renovável - podemos aplicar esses insights aos nossos processos industriais e aumentar a produção distribuída e encurtar as cadeias de suprimento.

As promessas de mudança para biomateriais e sistemas de produção e economias circulares baseados em energia renovável e com foco regional são: aumento do emprego e resiliência da comunidade, trabalho mais significativo, maior coesão social numa cultura de colaboração e uma mudança de processos industriais que são ambientalmente destrutivos para indústrias que são regenerativas por natureza.

Empresas que aplicam design biomimético e aprendizagem pela Natureza como sua estratégia de inovação, frequentemente começam por inovar novos produtos, para depois começar a inovar processos de produção mais saudáveis e sustentáveis e eventualmente começam a explorar biomimética sistêmica, prestando atenção em como elas podem criar vantagem colaborativa com outras empresas em seu setor. A biomimética no nível de sistemas pode informar o desenvolvimento regenerativo criando ecossistemas de colaboração engajados na regeneração social, ecológica e econômica na escala local e biorregional.

Limpar todas as cadeias de suprimento de uma indústria requer a cocriação de ecologias corporativas colaborativas que começam a ter um impacto regenerativo sistêmico em todas as escalas: local, regional nacional e global.

Além disso, as empresas engajadas em tais inovações transformadoras na transição rumo a diversas culturas regenerativas em todos os lugares contribuirão ativamente com uma estrutura de significado e propósito compartilhados para seus funcionários, bem como para as comunidades mais amplas em que operam. Essas estruturas de significado são a história do lugar contada por seu povo, entrelaçada com um significado compartilhado em torno do maio potencial da singularidade biocultural daquele lugar.

As empresas que visam trabalhar de forma regenerativa tornam-se catalisadoras na transformação de todo o seu setor. Os engajados em curar seus setores de fraturas patológicas e danos externalizados sociais, ecológicos e econômicos causados pela busca de vantagem competitiva. Essas empresas acabarão por contribuir com a tranformação de toda a sua indústria e influenciarão positivamente a vida de muitas pessoas nos lugares em que a empresa e seus fornecedores operam.

Sim, reconhecidamente os exemplos ainda são poucos e distantes entre si - e nenhum sem espaços para melhorias - ainda assim LUSH, Patagonia, Interface e alguns outros estão começando a pensar e agir sistemicamente muito além do seu core business imediato. Essas empresas estão explicitamente almejando ter um impacto regenerativo que vá além dos benefícios para clientes, investidores e funcionários. As pessoas dessas empresas ganham tanto na economia do dinheiro quanto na economia de significado.

A verdadeira riqueza está na economia do significado

As pessoas querem trabalhar para empresas que dão aos seus funcionários a confiança de que o trabalho de um dia não é apenas sobre ganhar dinheiro e alimentar a família em casa. A maioria das pessoas gostaria de ver que a sua contribuição para o seu empregador e o seu trabalho na sua comunidade e região também cria um futuro mais saudável para os seus filhos e melhora notavelmente as condições para todos na região.

Não é suficiente apenas ganhar na “economia de dinheiro”, as pessoas anseiam por ganhar também na “economia de significado”. É este último que cria compromisso e lealdade do empregado. Trabalhar apenas por dinheiro é a destruição da alma e um caminho certo rumo ao esgotamento, a depressão e a falta de saúde. Trabalhar na economia do significado cria riqueza na forma de relações humanas nutritivas, ecossistemas saudáveis regenerados, economias locais vibrantes e comunidades locais prósperas.

O desenvolvimento regenerativo é informado pela compreensão biológica e ecológica do desenvolvimento, e não pelo dogma do desenvolvimento econômico (neoliberal). A verdadeira riqueza está em relações de cuidado significativas entre as pessoas e seu lugar - as pessoas e o planeta. Ao criar condições conducentes à vida - lutando pela vantagem colaborativa - podemos regenerar sinergias sociais, ecológicas e econômicas em escala local e regional que oferecem verdadeira riqueza, saúde e significado.


Gostou do que leu?

Então chegue junto e participe das trocas e conversas no nosso ponto de contato no WhatsApp e/ou se inscreva na nossa Newsletter:

Deixe um comentário