A Complexidade da Incerteza – Um texto escrito por várias mãos.

6 minuto(s) de leitura

Contexto deste Experimento

Em Novembro de 2018, eu, Danilo Oliveira Vaz, um dos netweaver do Emergir, fui convidado a escrever um artigo a ser publicado na Philosophy Sharing, uma revista impressa distribuída mensalmente nas Ilhas de Malta. O convite foi simples. Escrever um texto, em inglês, de no máximo 1000 palavras sobre qualquer tópico que convide os leitores a pensar ou ganhar alguma nova informação. E o prazo para o desafio era de aproximadamente um mês.

Depois de pensar sobre o que e como escrever esse texto, decidi dar espaço a uma curiosidade que emergiu em mim. Como seria co-escrever esse texto em rede? Ou seja, como esse texto poderia ser imaginado, construído e escrito por qualquer pessoa que quisesse escreve-lo? Por si só, essa experiência já seria um baita compartilhamento filosófico. Então, sem ter respostas, essa co-criação foi energizada. Primeiro, abrindo um pad colaborativo, onde qualquer pessoa podia fazer qualquer alteração no texto e depois com chamados pelas redes.

O resultado dessa experimentação foi um texto muito rico, escrito por diversas mãos distribuídas em várias localidades. Todas as contribuições foram sintetizadas em um corpo que recebeu o título de “A Complexidade da Incerteza – Um texto escrito por várias mãos”, e a imagem de uma roda de capoeira como capa, que aos meus olhos, exemplifica em forma de dança vários dos insights explorados na co-escrita. O texto foi então traduzido para o Inglês e submetido à Philosophy Sharing. Contudo, ele não foi compartilhado com as redes que o co-criaram, na esperança de que todos pudessem lê-lo já impresso na revista, dali um período de um mês.

Infelizmente, até hoje (Março de 2019) não consegui mais contato com a Philosophy Sharing a respeito da publicação (ou não) do mesmo. Portanto, é mais do que hora de publicar-lo aqui mesmo. Em sua versão original em Português, para o desfruto de todxs nós. A versão em Inglês, enviada à Philosophy Sharing, está disponível aqui (Uncertainty’s Complexity)


A Complexidade da Incerteza – Um texto escrito por várias mãos.

O que nos faz seres certos?

O quanto daquilo que acreditamos controlar, nós realmente controlamos?

De maneira geral, o que podemos entender por modus operandis atual – engrenado pelas macro forças político-econômicas do mundo globalizado – pressupõe uma possibilidade grande de controle sob diversas variáveis e fenômenos ao nosso redor. E os mind & action-sets que derivam desta visão acabam definindo muito do que é a experiência humana consciente (e subconsciente) na contemporaneidade. Contudo, não é exagero argumentar que isso que se transverte de realidade está muito mais próximo de uma encenação, especialmente em contextos caracterizados por alta complexidade. Por exemplo, pouco se vê desse anseio por controle no que costumamos chamar de “mundo natural”, do qual somos todos parte. O que se vê, na verdade, são fluxos dos mais diversos e intensos que emergem em situações de equilíbrio dinâmico nas escalas de organismos e coletivos de organismos (ecossistemas). Fluxos tais que manifestam habilidades impressionante de dança com a Incerteza que caracteriza a própria Vida.

A partir deste olhar, é possível especular sobre um momento de cisão da consciência humana com a sua própria Natureza, fenômeno que fica bastante explícito na tentativa de controle da última por parte da primeira. Isto é, aquilo que não se reconhece em sua forma plena, tenta controlar e comandar a dimensão de si que não entende como si, apenas por esta ser externa àquilo que, teoricamente, delimita um corpo.

Nesse processo, o controlador se venda àquilo que, comodamente, chama de externalidade e passa a operar a partir de uma encenação controladora. O que, tragicamente, torna menos provável as experiências de dança com suas dimensões externas, que ensinam a se relacionar com a Incerteza. E em um ciclo vicioso, a falta da experiência em como se relacionar com a Incerteza gera o medo da mesma, que gera o anseio por controle, que torna improvável experiências que ensinem a dança de relacionamento com a Incerteza, etc…

A repetição desse padrão por vários agentes em longos períodos de tempo reforça a encenação coletiva e a tendência à linearização de situações complexas. Porém, conforme aumentamos o grau de conectividade entre nós e, consequentemente, a complexidade da nossa co-existência, a linearização como método torna-se perigosa, e os sistemas de controle daquilo que é complexo passam a dar sinais de sua fragilidade. No meio disso, o que resta é a clareira da mudança, que em toda sua fluidez e não definição, pede passagem.

Os tempos são habilidosos em nos trazer desconforto e grande incerteza quando trocam de fase, mas também elas, as incertezas, nos entregam pistas para que possamos seguir descobrindo, a partir de nós mesmos, caminhos novos ou oportunidades de nos tornarmos novos caminhantes. Desta forma, vamos nos fazendo pelos caminhos da natureza, tecendo laços vitais, descobrindo talentos e fraquezas. A exemplo daquilo que se observa em relações íntimas amorosas, em que não se pode saber aonde a confiança em um parceiro nos levará, a Incerteza inerente aos tempos que trocam de fase traz consigo certo grau de esperança e deixa espaço para a construção de um imaginário em comum. E é neste local que reside abundância de insumo para o nascimento do belo.

Considerando esse pano de fundo, o que existe em um cenário futuro fruto do semear de uma nova consciencia precisamente no agora? Talvez nós nos adaptaremos a fluidez da inconstancia, de maneira que os imprevistos ganham espaço nos planejamentos, em um estado individual e coletivo de plena confiança na dança entre caos e ordem. Simplesmente paradoxal, a poesia da dualidade. Não mais nos surpreenderemos tão intensamente, o desenvolvimento da equanimidade sugere que a humanidade se acostumará com o fluxo de surpresas.

Como diz Buckminster Fuller: “Nas complexidades do design integral, o universo é tecnologia. A tecnologia desenvolvida pelo ser humano é bastante incipiente comparada com a elegância da trama regenerativa não-humana. A humanidade não reconhece espontaneamente outra tecnologia que não seja a própria, de maneira que fala do resto como algo que ignorantemente chama de natureza.”

Esta perspectiva possibilita uma amplitude de sentidos e torna necessária a concepção de paradigmas consonantes, que permitam congregar integralmente os tantos conhecimentos, valores e saberes oferecidos pelas aventuras humana e não humana ao longo do tempo e espaço, tais quais as mais diferentes manifestações artísticas, tecnológicas, culturais, filosóficas, espirituais. Talvez assim, esses paradigmas sejam capazes de nos tornar mais equipados para dançar com a complexidade dinâmica que gera e se alimenta dos diversos fluxos inerentes à Vida e à Incerteza, quiçá nos imunizando contra as sensações de angústia que acompanham várias das situações que não podemos controlar.

E de maneira especulativa, pode-se considerar que os modi operandi provenientes de tais paradigmas, ao acomodar a Natureza de nossa natureza, podem nos auxiliar no cultivo de dinâmicas complexas entre nós que, dentro de sua organicidade incontrolável e irregularidades regulares, minimizam as chances de injustiça e danos provenientes daquilo que é intencionalmente incerto, como certas normas, leis e acordos sociais.

Mas, no final das contas, não há como saber se estas especulações apontam para conclusões verdadeiras, até por que elas obedecem a lógicas ontológicas e epistemológicas que ainda não têm uma forma, apenas experimentações livres. Ou, para resumir em poucas palavras, todo esse texto é uma grande incerteza.


Esse texto foi escrito de forma colaborativa por várias pessoas conectadas aos clusteres de estudo e interação e animação em rede Emergir e E2GLATS.


Gostou do que leu?

Então chegue junto e participe das trocas e conversas no nosso ponto de contato no WhatsApp e/ou se inscreva na nossa Newsletter:

Deixe um comentário