A Complexidade da Evolução Cultural

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Este texto foi traduzido do Medium do Designer Cultural Joe Brewer por Lara Bach. Para uma síntese maior sobre trabalho de Joe, confira Design Cultural - O Campo Científico Necessário para o Século XXI.


O que a crise ecológica tem em comum com a pobreza global? Como a política se relaciona com a economia? E o estudo da história? O panorama em mudança da tecnologia, das artes e da cultura? Por que não há uma Escola de Ciências Sociais coerente que reúna temas como esses em um só lugar? As respostas podem ser encontradas sintetizando duas das áreas mais importantes da ciência nos últimos 150 anos - os campos de estudos evolutivos e de ciência da complexidade.

Todos os tópicos mais interessantes e importantes no mundo hoje (Como funciona a consciência? O que é a mente humana? É possível restaurar a saúde de ecossistemas deteriorados? Podemos criar sistemas políticos que promovam saúde e bem-estar generalizados?) envolvem vastas redes de relacionamentos interagindo umas com as outras - o que são chamados de sistemas adaptativos complexos, no jargão da Ciência da Complexidade.

Exemplos conhecidos incluem coisas como o clima, com sua inerente imprevisibilidade, ou a economia de mercado, que não tem um locus central de controle. O que torna um sistema “complexo” é que os seus padrões surgem através de interações que não são redutíveis às suas partes constituintes. Você não pode explicar o clima simplesmente descrevendo o que as moléculas de água ou a radiação solar, isoladas, são capazes de fazer. Tampouco pode explicar uma economia apenas descrevendo como os indivíduos se envolvem em escambo ou trocas, scaso estes estiverem em uma sociedade baseada em livre mercado.

É importante ressaltar que sistemas adaptativos complexos estão sempre longe do equilíbrio. Eles não são estáticos. E a única maneira de entender seu comportamento é modelar, no computador, como as várias partes interagem umas com as outras dinamicamente - o que leva à importância da evolução. A ênfase na palavra adaptativa em sistemas adaptativos complexos remete à Teoria da Seleção Natural de Charles Darwin, onde os traços biológicos de um organismo que são adaptativos em seu ambiente tendem a ocorrer com mais frequência do que traços que não são adaptativos.

Com o passar do tempo (já que sistemas vivos também são dinâmicos), o caminho evolutivo da biologia é traçado pelas interseções das aptidões adaptativas em ambientes que podem estar mudando rápida ou lentamente. Todos os sistemas biológicos são complexos (eles têm muitas partes interagindo com fenômenos emergentes que não são redutíveis) e são adaptativos (conforme a seleção natural se manifesta em ambientes em mudança).

Então, o que isso diz sobre evolução cultural? Como podemos aplicar essa descoberta básica da biologia ao estudo da história e da economia, da política, e da gestão ambiental? Bem, acontece que os pesquisadores que estudam a evolução cultural - e há agora quase 2.000 deles na recém-formada Sociedade de Evolução Cultural, que eu tive a tarefa de ajudar a criar - trouxeram a caixa de ferramentas matemáticas usadas na ciência da complexidade para o estudo de mudança cultural em espécies humanas e não humanas.

As primeiras descobertas dessa síntese remontam a um debate de um século atrás, quando foram formadas as fundações para o estudo da genética de populações. Naquela época, os estatísticos estavam ativamente estudando questões sobre como explicar a variação genética em organismos biológicos (antes mesmo da invenção dos computadores digitais). Eles desenvolveram sistemas de contabilidade para traços biológicos que amadureceram bastante entre o início e a metade do século XX.

No final dos anos 70 e início dos anos 80, havia um grupo de pesquisadores de evolução cultural que traduziu essas ferramentas estatísticas para mecanismos distintos de “seleção” que atuam em repertórios comportamentais e em outros fenômenos culturais em culturas humanas e não humanas. Entre eles estavam Luigi Cavalli-Sforza e Marcus Feldman em Stanford, Peter J. Richerson na UC-Davis, e Robert Boyd na Arizona State University. Esses esforços culminaram na publicação de Transmissão e Evolução Cultural: Uma Abordagem Quantitativa em 1981 e Cultura e o Processo Evolucionário em 1988.

Foi durante esse mesmo período que o campo de pesquisa de complexidade estava em andamento - com o multidisciplinar Santa Fe Institute sendo estabelecido em 1984 para explorar os padrões matemáticos de sistemas adaptativos complexos em diversos domínios de estudo. Eles organizaram oficinas e simpósios sobre economia, ecologia, estudos urbanos, epidemiologia, e muito mais para descobrir como os sistemas complexos evoluem e mudam usando as ferramentas matemáticas da geometria fractal, ciências de redes, equações diferenciais, e métodos computacionais.

Como escrevi em outro texto, corremos urgentemente contra o tempo para sintetizar e aplicar o que se sabe sobre complexidade e evolução. O destino da humanidade depende, literalmente, da nossa capacidade de realizar essa síntese. Em uma época de mudanças exponenciais sem precedentes, precisamos aprender a gerenciar sistemas complexos à medida que eles evoluem em tempo real.

Precisamos, em primeiro lugar, compreender que os sistemas culturais evoluem de acordo com os princípios darwinianos. O leitor que estiver interessado pode encontrar muitos livros explicando isso. Aqui estão alguns:

Esta é uma pequena coleção - hoje em dia, existem centenas de livros sobre estudos evolutivos culturais. Para este artigo, é importante notar que (i) o campo da evolução cultural está bastante maduro nesse momento; (ii) o campo avançou rapidamente desde a incorporação de ferramentas matemáticas que são utilizadas no estudo da complexidade; e (iii) o mundo está num fluxo com uma tremenda necessidade de que esse conhecimento seja utilizado em nossos desafios globais do século XXI.

Este é o trabalho do Design Cultural.

Os desafios mais urgentes do mundo têm componentes culturais fundamentais. O aquecimento global surgiu das falsas ilusões da separação entre humanos e natureza, e da percepção da infinita generosidade dos recursos naturais no início da era industrial. O terrorismo é cultivado em paisagens onde as pessoas sentem uma profunda ansiedade e desespero econômico - que surgem de modelos específicos de exploração colonial (ou pós-colonial) cujas histórias culturais são únicas.

Da mesma forma, a disseminação do individualismo inflexível como uma construção cultural trata os seres humanos como se eles fossem separados de suas comunidades, inerentemente egoístas e veneráveis por se engajar em comportamentos psicopáticos, como a acumulação de riqueza. Em cada caso, o poder real é a cultura, e as únicas soluções viáveis envolvem o gerenciamento intencional da mudança evolucionária cultural.

Mas não podemos nem começar a pensar dessa maneira se não reconhecermos que as culturas humanas operam como sistemas complexos. É somente aprendendo a ver que os padrões emergentes surgem através das interações das partes constituintes que começaremos a discernir como a mudança evolucionária está nos aproximando do colapso em escala planetária - e serão necessárias práticas de design que façam uso do que é agora conhecido como estudos evolutivos culturais.

Adiante, companheiros humanos.

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