Está difícil discernir sobre o mundo?

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O fácil acesso à abundância de Informação criada e fluida por entre nós faz emergir desafios extremamente complexos para os quais não fomos preparados, evolutivamente e culturalmente. Desafios relacionados com a nossa capacidade de discernir o que é verdade daquilo que é inverdade. Isso se torna evidente em momentos de alta intensidade emocional e conflitos de interesses. Exemplo claro sendo as eleições brasileiras de 2018, onde o fenômeno do #fakenews tem reinado soberano, alimentado por plataformas (ditais) socias que - na tentativa de maximizar o tempo que seus usuários gastam em seus ambientes (o que aumenta a coleta de dados sobre os usuários, e assim o valor da plataforma para anunciantes) - fazem uso de táticas psicológicas materializadas em algoritmos altamente polarizantes.

Como se não bastasse, a vasta quatidade de dados coletados nessas condições são comercialmente utilizados para a criação de campanhas (comerciais e políticas) que categorizam as pessoas de acordo com as suas tendências emocionais e psicológicas e fazem uso das plataformas-nada-sociais para bombardear esses usuários com conteúdos que tendem a reforçar aquilo que eles já estão pré-dispostos a acreditar. Essa é a fórmula do caos do discernimento e do fortalecimento de todo tipo de #fakenews.

Os resultados disso tudo estão postos na vida de cada um de nós. De rompimentos de relações à internalização desse fenômeno como um todo. E a tendência é que so torne cada vez mais difícil navegar o mar de informações que nos rodeia, inclusive por conta de alguns desenvolvimentos na interseção de Inteligência Artificial e Imagens Geradas por Computadores, que já estão gerando todo tipo de #fakevideo, que são completamente diferentes de montagens, por envolverem a geração de vídeos altamente convincentes a partir de uma coleção de outros vídeos. Isso com certeza logo será utilizado como arma política em processos eleitorais ao redor do mundo, colocando falas nunca ditas da boca de figuras políticas influentes. E é difícil de acreditar que estaremos preparados para lidar com isso. E o pior dessa situação é que ela não se limita ao campo político-eleitoral. As mesmas condições que regem nossa capacidade de discernimento estão afetando a maneira pela qual interpretamos e reagimos aos fenômenos macro que representam uma verdadeira ameaça à Vida.

Por todos esses motivos, reflexões como as que são postas pelo escritor alquemico Gilbert Ross ao canal Uplift são extremamente necessárias. Felizmente para a nós, a Lara Bach fez a tradução desse texto para o Emergir!


A falta de compreensão ameaça nossa existência?

Estamos vivendo num momento da nossa evolução em que a quantidade e qualidade de problemas que enfrentamos são existenciais por natureza; isto é, eles se direcionam a cenários sombrios de autodestruição. Da degradação acelerada de nossa biosfera, superpopulação, migração em massa, guerras e disputas civis até a crise das estruturas econômicas e sociais, estamos constantemente perdendo oportunidades de restaurar nossa sanidade e voltar ao caminho certo. Nossa cultura atual é, infelizmente, carente de sabedoria e de consciência para lidar com as grandes mudanças pelas quais estamos transitando. Nosso avanço tecnológico está superando nosso crescimento de conhecimento e sabedoria, e nossos modelos da realidade estão nos prejudicando em grande escala.

Em outras palavras, existe uma dissonância entre nosso mundo em constante mudança, e como estamos mapeando-o internamente. É isso que está criando uma série de crises no mundo que conhecemos hoje. Quando um sistema inteligente e adaptativo experimenta um descompasso entre seu ambiente e seu modelo interno da realidade, sempre surgirá uma crise, levando o sistema a se auto-organizar de modo a restaurar o equilíbrio. Isso é exatamente o que estamos enfrentando agora, mas a nossa capacidade de compreender o mundo está em declínio, e isso é um dos maiores obstáculos para retardar a nossa destruição e restaurar equilíbrio. A ideia de que há uma grande peça faltando na nossa compreensão do mundo, e a razão pela qual isso é o maior fomentador dos problemas existenciais que enfrentamos hoje, também é um argumento defendido por Daniel Schmachtenberger e Jordan Greenhall. Eu recomendo ouvir o podcast deles se você quiser se aprofundar no assunto deste artigo.

O foco deste artigo é, na verdade, a falta de discernimento (sense-making) das coisas, quais algumas causas dessa falta na minha visão, e algumas ideias sobre possíveis cenários futuros que podem nos ajudar a sair desse ímpeto em direção à autodestruição.

imagem1 “Extinção em massa, incêndios espontâneos, seca severa: os próximos 100 anos”. Quando o ambiente de um sistema inteligente é incompatível com sua realidade interna, uma crise surge.

Saia do meu ciclo!

Somos sistemas autopoiéticos, o que significa que aprendemos, mudamos, e evoluímos interagindo com um ambiente. Fazemos isso entrando em certos “ciclos” de feedback, do mesmo jeito em que nossos neurônios disparam e se conectam para criar novos caminhos neurais à medida em que aprendemos, e, a partir daí, usam esses novos caminhos para filtrar e dar sentido a novas informações provenientes do nosso ambiente. É o que o psicólogo evolucionista Jean Piaget chamou de “assimilação” e “acomodação” - ambos sendo os ingredientes principais desse feedback neural tão importante para o nosso aprendizado. A assimilação é quando reconhecemos e filtramos padrões graças à familiaridade com nossas experiências anteriores, gravadas em nossas vias e estruturas neurais. A acomodação é quando esses caminhos, ou estruturas, são alterados para acomodar novas informações. A dinâmica constante entre assimilação e acomodação é um ciclo de feedback que nos permite continuar aprendendo e nos adaptando.

Existem camadas e camadas de ciclos de feedback, desde a expressão gênica e manutenção celular até nosso sistema nervoso, passando pelo sistema endócrino, neuroquímica, sistemas sociolinguísticos, e até os sistemas econômicos globais. Desde a nossa biologia celular até a nossa extensa e complexa dinâmica social, tudo opera, em algum nível, através de ciclos de feedback. Nós, humanos, como seres biológicos e sociais, somos literalmente a expressão emergente de centenas de milhares de ciclos de feedback, em várias centenas de camadas de ordem e complexidade.

Não é surpresa que nosso condicionamento social, profundo e baseado no medo, opere em sistemas de ciclos de feedback aninhados uns sobre os outros e encontrados em diferentes áreas como linguagem, escolarização, sistemas de recompensa e punição, normas culturais, leis e regulamentos, etc. Alguns desses sistemas hackeam e exploram ciclos de feedback mais específicos, como os ciclos de feedback de adrenalina e cortisol ou o ciclo de dopamina em nosso cérebro. Por exemplo, é sabido que o Facebook e outras plataformas de mídia social criaram interfaces de usuário e interações cuidadosamente projetadas para explorar os ciclos de feedback baseados na dopamina, o que acaba criando dependências da mesma forma em que dependências por pornografia e álcool são criadas. Isso cria um tipo de sistema de recompensa de feedback rápido (também conhecido como gratificação instantânea) usando a liberação de dopamina no cérebro, que é essencialmente o neurotransmissor responsável pela sensação de “sentir-se bem”.

Imagem2 O Facebook usa um ciclo de feedback que nos atrai com a promessa de gratificação instantânea

Imagine o seguinte cenário: um adolescente está passando pela típica fase de se sentir sozinho e de precisar ser aprovado/aceito por seu grupo, ou dentro de um determinado grupo social. Ele/ela começa a curar imagens e vídeos cuidadosamente pensados e escolhidos a dedo que retratam o jovem como uma persona ou alter-ego que se encaixa melhor dentro das normas desse grupo social. Algumas curtidas, comentários ou mensagens chegam e uma liberação instantânea de dopamina é acionada, fazendo o jovem “sentir-se bem”, digno, ou aceito. A mesma coisa pode acontecer quando o mesmo adolescente está vendo modelos encenando vídeos e fotos de uma vida ou estilo de vida ideal (mas grosseiramente inautêntico). É a mesma liberação de dopamina reforçando o ciclo até que um padrão de dependência seja formado.

Encurtando nossa atenção

Agora, tenha em mente que estamos falando de uma área específica de comunicação e mídias sociais. Não podemos nem começar a avaliar a enorme quantidade de sistemas criados por seres humanos, que são intencionalmente ou desajeitadamente projetados para roubar nosso foco, coerência de informações, e capacidade de compreender o mundo e seus problemas. As mídias sociais definitivamente não são o único sistema que hackeiam nossa rede de feedback neural através de uma exploração, como a gratificação instantânea, mas dá um exemplo claro de como estamos perdendo nossa capacidade de entender o mundo, encurtando nossa atenção, tendo nosso foco desviado do importante para o trivial, e de como estamos hipnotizados, com nossos rostos presos às nossas telas enquanto o nosso mundo, incluindo nós mesmos, são fortemente ameaçados. À medida que a porcaria se acumula, lá estamos nós, sendo seduzidos pelo brilho da luz azul e extasiados ao pressionar o botão “like”, assim como os cães de Pavlov se extasiavam ao pressionar suas campainhas.

E aqui está outra coisa interessante: depois da disseminação das mídias sociais, as pessoas estão ficando cada vez mais ansiosas por pequenos pedaços de mídia. Nós não lemos mais livros ou artigos longos. A duração da nossa atenção encolheu para algo entre trinta segundos e dois minutos. Queremos que tudo, não importa o quão complexo seja, seja explicado em clipes legendados de qualidade 4K de dois minutos no máximo; caso contrário, ficaremos entediados e pensaremos que o mundo é incrivelmente complexo demais para lidarmos com ele. Isso, porém, não é o ponto final. Outras agências de mídia, redes, e operadoras entenderam tudo isso e querem usar esses fatores a favor deles, já que não querem ficar de fora dessa exploração neurológica de gratificação instantânea e atenção curta. Ontem à noite, eu estava em casa com a TV ligada em um canal para crianças, e fiquei surpreso ao ver que o canal estava mostrando animações e outros tipos de entretenimento infantil em “formato de mídia social” - ou seja, eles estavam bombardeando as crianças com clipes minúsculos de dois a cinco minutos (às vezes menores que dois minutos), um após o outro. “Isso é pior do que eu pensava”, eu disse para mim mesmo.

Imagem3 As mídias sociais nos exploram e direcionam nosso pensamento.

É claro que os comerciais de televisão aprenderam a fazer isso há muito tempo, devido ao tempo mais curto na tela e ao aumento das regulamentações. Eles aprenderam todos os meandros da comunicação não-verbal, mecanismos de indução hipnótica, e todas as maneiras pelas quais alguém pode hackear o sistema límbico e o cérebro reptiliano, a fim de subliminarmente nos fazer executar alguma ação.

Finja até conseguir - ou quebrar

Fica evidente então que existe desinformação intencional, ou informação que foi distorcida e corrompida à medida que cascateou através de diferentes canais de comunicação. Pense em quantas vezes ouvimos as palavras ‘Fake News’ saindo da boca dos políticos para seus comunicados de imprensa ultimamente. Como se nosso modo de comunicação e nossa qualidade de informação não fossem ruins o suficiente, agora estamos intencionalmente disseminando informações falsas. No entanto, isso não é novidade. Grupos sociais, e até estados-nação, têm manipulado informações cuidadosamente para criar propaganda ou jogar inimigos e concorrentes fora da competição. Há ruídos e interferências nos nossos canais de comunicação desde a sua forma mais rudimentar. É só que, agora, isso está ficando fora de controle por causa do nosso exponencial progresso tecnológico e da nossa atenção mais curta.

Pode-se também fixar isso em um cenário sócio-político mais amplo. Como Schmachtenberger corretamente colocou em uma entrevista, há algo intrínseco na dinâmica da sociedade capitalista que cria uma espécie de jogo constante de ganhar e perder. A informação dentro deste quadro ideológico será sempre usada como vantagem competitiva. Então, você acumula informação e cuida de como limitar sua distribuição (para criar valor a partir da escassez), ou então dissemina ruído e interferência no canal através da desinformação.

Levantando a questão: Como compreendemos isso tudo?

Resumindo: com tanta mídia lixo competindo por nossa atenção através de hacks dos nossos feedbacks neurais, desinformação e notícias falsas, canais de comunicação cheios de interferências, diminuição da nossa atenção e a desconexão profunda dos problemas e prioridades do mundo real, como diabos podemos compreender e criar informações significativas do mundo ao nosso redor? Como podemos modelar nossa realidade com precisão e criar informações coerentes que nos levam a sair dessa hipnose em massa, e continuar trabalhando em soluções para salvar nossa própria biosfera, nosso futuro? Como podemos tirar nossos narizes de nossas telas para perceber que existe uma realidade fora da mídia de dois minutos, e, se não modelarmos essa realidade, muitas coisas ruins estão prestes a acontecer?

Imagem4 Como podemos nos libertar dessa hipnose em massa e nos salvar?

Os Três Pilares da Compreensão

Eu categorizo o problema da compreensão em três partes: percepção do problema, interpretação significativa, coerência da informação, e alinhamento dessas duas últimas partes com motivação e vontade de agir. Vou destrinchar isso um pouco mais.

Percepção do problema

Em palavras simples, trata-se de primeiramente ter consciência do problema. É sobre perceber com nossos sentidos imediatos, mas também sobre ser sensível ao que está acontecendo ao nosso redor. Porém, isso não é tão simples quanto ficar mais informado e assistir a mais notícias. Acredito que haja mais desinformação a partir disso do que de outra forma. Aumentar nossa percepção, ou melhor, ter uma percepção mais certeira de nossos problemas do mundo envolve remover nossos filtros de percepção, as lentes que foram colocadas diante de nossos olhos devido ao nosso pesado condicionamento social. Como você sabe, nossa percepção da realidade não é “transparente” ou clara. É amplamente filtrada através de nossas crenças e respostas emocionais. Eu e você podemos ver uma realidade diferente quando olhamos para a mesma coisa. É isso que está acontecendo com o nosso mundo em mudança. Nossa percepção do mundo e seus problemas é filtrada pelas lentes do condicionamento e das mentalidades do século XX. Há uma dissonância cognitiva entre o que está acontecendo ao nosso redor e dentro de nós. Precisamos sair dessa hipnose e dessa ilusão para percebermos como nossas prioridades estão erradas, e onde devemos focar nossa atenção.

Interpretação significativa e coerência das informações que recebemos de nossa percepção

Quando analisamos qualquer dado a partir de nossa realidade, nós o interpretamos de acordo com nossas experiências anteriores e nossos modelos de realidade. Surge um problema: não temos um modelo coerente de realidade, e temos diferentes crenças e motivações. Em suma, vivemos em mundos diferentes. Adicione sistemas de comunicação e uma mentalidade de “nós vs. eles” e você começará a ter uma ideia da escala do problema. Isso não é tudo. Nossa ciência e nossas estruturas antiquadas para trabalhar em conjunto em cima de certos problemas estão quebradas. Precisamos de novas estruturas de colaboração, novos esforços transdisciplinares, e uma nova mentalidade, muito diferente da que concebemos nas últimas duas ou três décadas, a fim de entrar em interpretações mais coerentes de nossa realidade. Não podemos continuar interpretando nossa realidade a partir de sistemas disciplinares e suas ferramentas, como engenharia ou psicologia, para citar apenas dois. Precisamos encontrar maneiras transcendentais de encarar nossos problemas e criar o destino que iremos compartilhar no futuro.

Motivação e vontade de agir

Todo sistema inteligente e adaptativo tem motivação - um conjunto de regras e diretrizes que entram em ação sempre que percebem e interpretam certas informações ao nosso redor. Por exemplo, percebo que meus esforços artísticos estão dando certos resultados, que interpreto como o desabrochar da minha vida criativa, e que, por sua vez, me motivam a intensificar e concentrar mais esforços nela. Existe uma certa motivação, algo que me coloca em ação, sempre que certas informações são registradas. Assim, percepção, interpretação, e motivação trabalham de mãos dadas.

Imagem5 Percepção, interpretação, e motivação trabalham de mãos dadas.

Agora, nossa percepção já é manipulada através da hipnose em massa induzida por todos os mecanismos mencionados acima. Precisamos recuperar nossa atenção e nosso foco. Precisamos começar a fazer isso de um jeito simples e mundano. Por exemplo, precisamos gastar menos tempo na frente de nossas telas e nos engajar em conversas mais significativas. Ler livros ou artigos longos. Filtrar informações de forma mais inteligente. Interagir mais com pessoas fora do nosso círculo. Aprender algo novo sempre que pudermos.

Quanto à interpretação e coerência da informação, precisamos encontrar novas maneiras de colaborar e compreender nossa realidade, como já mencionado acima. Vou ampliar um pouco esse assunto no próximo parágrafo.

Quanto à motivação, acredito que temos a motivação inerente para prosperar e avançar, ou pelo menos evitar o botão de autodestruição, se nossa percepção do mundo e nossa interpretação se alinharem. Uma vez que reivindicamos a nossa atenção e consciência de volta e criamos uma interpretação mais significativa da nossa realidade, a motivação para resolver os problemas existenciais que enfrentamos será totalmente acelerada.

Inteligência Coletiva, Internet das Coisas, e Compreensão Transcendental

Este é um conceito complicado de explicar dentro dos limites de um artigo, mas vou tentar da forma mais fluida e concisa possível. Estamos entrando em uma fase em que nossa tecnologia está crescendo exponencialmente, e, juntamente com nossa falta de sabedoria, além de uma consciência coletiva ainda em evolução, ela está criando uma receita certa para o desastre. No entanto, se certas etapas forem executadas com estratégia e cuidado, certas tecnologias também poderão ser nossa última chance de evitar o colapso total ou a autodestruição. Isso tem a ver com um tipo de tecnologia específica que nos ajudará a interpretar informações mais significativas e a perceber coisas que, de outra forma, não poderíamos ver, mesmo colaborando uns com os outros. Duas das principais tecnologias que podem nos ajudar são as chamadas “Internet das Coisas” (IoT) e Inteligência Artificial (A.I.) - embora o último seja uma faca de dois gumes, e possa facilmente acabar no lado errado.

Imagem6 Podemos ver um novo mundo cheio de potencial se nos conectarmos à “Internet das Coisas”.

Nos dias de hoje, a internet que usamos é basicamente uma conexão de texto, documentos, vídeos, e outros recursos multimídia, juntamente com camadas de protocolo de comunicação e aplicativos como e-mail, bate-papo, conferências de voz e vídeo, etc. Ela cresceu exponencialmente em termos de infra-estrutura, ou seja, em número de conexões e velocidade, mas ainda não experimentamos um salto quântico na forma como a internet será usada.

No momento, ainda estamos no estágio inicial. Quando estatísticas sobre a maioria das coisas deste planeta - por exemplo, portas, motores, mesas, eletrodomésticos, sensores, estradas, edifícios, etc. - estiverem interconectados e tivermos acesso à computação quântica e inteligência artificial para processar esses dados, e apresentar informações significativas a partir disso, as possibilidades serão infinitas. A paisagem mudará completamente e nós poderemos, literalmente, ver um mundo totalmente novo… se quisermos. Pense nisso por um minuto: suas buscas na internet estariam literalmente pedindo informações importantes, processando dados vindos do mundo físico em tempo real. Por exemplo, uma aluna do 8º ano estaria conduzindo um experimento científico ou transdisciplinar em tempo real a partir de seu quarto. Imagine, só por diversão, que ela decida investigar se as pessoas que andam menos de três quilômetros por mês são mais propensas a problemas cardíacos, ou se usar uma determinada cor com mais frequência é um traço comum entre pessoas que bebem café mais de três vezes por dia. Ela poderia obter um resultado sobre a probabilidade e as estatísticas do seu experimento em menos de um segundo, porque programas inteligentes e uma computação poderosa estariam processando milhões de dados sobre pessoas, objetos, e máquinas e reunindo-os para responder a uma pergunta que nunca foi perguntada antes. Naturalmente, isso é um exemplo banal, mas pense nas suas ramificações em diferentes esferas de aplicação e solução de problemas. São enormes.

Outra coisa que é relevante para compreender melhor os dados e criar informações coerentes é a capacidade dessa tecnologia de traçar e conectar pessoas, talentos, e habilidades. Como que as pessoas trabalham juntas ou colaboram em um problema? Geralmente, são profissionais que estudaram a mesma disciplina, recrutados pelas mesmas agências, ou que tiveram experiências semelhantes, ou talvez que estejam conectados a algum grupo de mídias sociais ou a um site de uma associação profissional. Muitas vezes é apenas uma simples e bonita coincidência. Embora as coisas sejam cem vezes mais inteligentes e mais rápidas do que, digamos, cinquenta anos atrás, ainda são bem básicas. Essa Internet das Coisas (IoT) poderia, de certa forma, facilitar a criação de uma inteligência coletiva entre pessoas e outros agentes inteligentes, de modo a continuar criando e desenvolvendo essa inteligência coletiva de maneiras que não conseguiríamos descobrir antes.

No caso de unir as pessoas, este é um exemplo claro de algo que não podemos ver do nosso ponto de vista. Agentes inteligentes, juntamente com camadas preciosas de dados, podem trazer uma nova dimensionalidade para pontos cegos em informações valiosas. Por exemplo, um sistema de inteligência coletiva poderia - através do “deep learning” - entender, além dos critérios convencionais e canais através dos quais pessoas e habilidades são geralmente reunidas, quais indivíduos com certas características e peculiaridades são uma combinação perfeita para colaborar em um determinado problema. Em vez de você encontrar o time certo, o time certo é levado até você. Tente ver isso como uma nova associação de pessoas ou tribos que não seriam possíveis de serem formados se víssemos as coisas de maneira convencional.

Imagem7 Um sistema de inteligência coletiva poderia combinar as pessoas certas para resolver problemas.

A ideia de inteligência coletiva é a ideia de reunir as mentes e as ferramentas corretas dentro de um espaço compartilhado de percepção e compreensão do que são os problemas e os objetivos. Agora, é claro, esse é o lado pragmático disso, pois, na verdade, uma inteligência coletiva poderia servir a infinitas possibilidades e potencialidades. Mas o que é importante para nós é que isso é uma maneira poderosa de transcender nossas visões limitadas, incoerências, e pontos cegos.

Outro aspecto importante dessa inteligência coletiva é o potencial para resolver outro problema fundamental, que Schmachtenberger descreve de maneira tão eloquente. É o problema que criamos retirando o contexto de um objeto ou problema e usando métricas simples para atribuir valor a ele. O próprio exemplo dele serve perfeitamente para ilustrar o problema: se você vir uma árvore em uma floresta, seu valor real pode ser descrito dentro do seu amplo contexto ecológico. Por exemplo, o ciclo de CO2 e oxigênio, o abrigo para pássaros e outros polinizadores, a proteção do solo superficial, a formação de relações simbióticas com fungos sob o solo, entre várias outras coisas. Nós, humanos, podemos derrubar a árvore e ver seu valor em termos de quantas tábuas de madeira ela produz, e seu valor de preço na cadeia de fornecedores. Mas isso estaria usando as métricas erradas para nivelar o complexo valor real das árvores. Você pode chamar isso de miopia e ganância, e isso estaria correto. Mas o importante a ser lembrado aqui é que construir mais inteligência coletiva, unir mentes com habilidades diferentes, mas complementares, e agregar riqueza e dimensionalidade aos dados podem nos ajudar a ver e entender o valor real de muitas coisas, bem como o quão profundamente estamos interconectados a essas coisas.

Isso também nos ajudará a transcender nossa percepção limitada, estruturas de pensamento, e modelos ultrapassados de realidade, para finalmente começarmos a entender melhor nossas responsabilidades, a extensão da nossa pegada neste planeta e, esperançosamente, começarmos a mudar os métodos que usamos para nos salvarmos da autodestruição e seguirmos em frente como espécie.


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