(Nós somos) uma jovem espécie em crescimento

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Em seu livro “Designing Regenerative Cultures”, o autor e consultor estratégico Daniel Christian Wahl explora as implicâncias do momento de intensas transformações que vivemos; como podemos encontrar inspiração em nossa própria essencial Natural para devir neste contexto; e reune exemplos de práticas que já estão regenerando e transformando ambientes pelo mundo.

Durante o final de Março de 2019 Daniel estará no Brasil para uma série de atividades e workshops facilitadas pelo cluster de Design Regenerativo. E juntamente com a vinda do Daniel, a Bambual Editora está viabilizando a tradução de seu livro para o Português, permitindo que suas ideias se espalhem ainda mais por aqui.

Alguns dos textos que compõem o livro, como este, foram traduzidos como publicações no Emergir e estão sendo publicados como forma de animar e energizar ainda mais essa vinda dele e a viabilização do seu livro em Português 🦋 Usaremos a #danielwahlnobr nas redes sociais para marcar essa agitação.

Texto traduzido por Lara Bach em junho 2018. Para acessar a versão original, clique neste link.


(Nós somos) uma jovem espécie em crescimento

Uma nova narrativa cultural está surgindo - uma que une a humanidade em nossa interdependência com a maior comunidade de seres vivos. Essa nova e antiga história de interação com a Vida e como a Vida está levando pessoas e comunidades ao redor do mundo a criarem culturas diversificadas, adaptadas localmente, e prósperas em colaboração global. Padrões culturais regenerativos começam a emergir como uma “expressão da Vida no processo de transformação própria”. Václav Havel viu a necessidade de tal transformação social quando escreveu em The Power of the Powerless:

“Uma mudança genuína, profunda e duradoura para melhor […] não pode mais resultar da vitória […] de qualquer concepção política tradicional, a qual, em última instância, pode ser apenas externa, isto é, uma concepção estrutural ou sistêmica. Mais do que nunca, tal mudança terá que derivar da existência humana, da reconstituição fundamental da posição das pessoas no mundo, de suas relações entre si e com o universo. Se um novo e melhorado modelo econômico e político for criado, talvez […] ele deva derivar de mudanças existenciais e morais profundas na sociedade. Isso não é algo que pode ser projetado e apresentado, como um carro novo. Se é para ser mais do que apenas uma nova variação da velha degeneração, isso deve ser, acima de tudo, uma expressão da vida no processo de transformação. Um sistema melhor não garante automaticamente uma vida melhor. Na verdade, o oposto é verdadeiro: somente criando uma vida melhor é possível desenvolver um sistema melhor.” Václav Havel (1985: 30)

A humanidade está amadurecendo, e precisa de uma “nova história” que seja poderosa e significativa o suficiente para galvanizar colaboração global e guiar uma resposta coletiva às crises convergentes que estamos enfrentando. Respostas transformacionais, em nível pessoal e coletivo, acontecem quando questionamos formas profundamente enraizadas de ser e ver e, no processo, começamos a nos reinventar. Ao fazê-lo, também mudamos a forma como participamos da formação da cultura através da nossa interação com o mundo que nos rodeia.

A partir de uma perspectiva de longo prazo, como uma espécie relativamente jovem neste planeta, estamos coletivamente passando por um processo de maturação, o que nos obriga a redefinir como entendemos nossa relação com o resto da vida na Terra - encarando as escolhas entre colapso ou transformação profunda. A história básica que estamos contando sobre a humanidade - quem somos, por que estamos aqui, e para onde estamos indo - não mais nos serve como uma bússola moral funcional.

Assim como os adolescentes que estão amadurecendo precisam aprender a não apenas exigir da família e da sociedade, mas contribuir significativamente, a humanidade não pode mais continuar queimando os depósitos naturais da Terra. Temos que aprender a viver dentro dos limites da capacidade bioprodutiva da Terra, e usar nossa atual “renda solar” em vez de luz de longa data (armazenada na crosta terrestre como petróleo, gás e carvão) para fornecer nossa energia. Ao passar da nossa fase juvenil - e, às vezes, imprudente e auto-absorvida - como uma espécie jovem para uma participação madura na comunidade da vida na Terra, somos chamados a nos tornar membros produtivos dessa comunidade e a contribuir para sua saúde e bem-estar.

Participação comunitária madura significa uma mudança em direção a uma forma de interesse próprio iluminado que chega a questionar a noção de um eu separado e isolado em seu cerne. No sistema planetário interconectado e interdependente do qual participamos, a melhor maneira de cuidar de si mesmo e daqueles mais próximos é começar a se importar mais com o benefício do coletivo (toda Vida). Metaforicamente falando, estamos todos no mesmo barco: nosso sistema planetário de suporte à vida, ou, nas palavras de Buckminster Fuller: na “nave espacial Terra”. O pensamento de “eles contra nós”, que por muito tempo definiu a política entre nações, empresas, e pessoas, é profundamente anacrônico.

A humanidade como um todo está enfrentando um iminente caos climático e a quebra das funções ecossistêmicas vitais para a sobrevivência da nossa espécie e de muitas outras. Nós não encontraremos as soluções para esses problemas se continuarmos a basear nosso pensamento nas mesmas suposições errôneas sobre a natureza do “eu” e do mundo que criaram tais problemas em primeiro lugar.

Precisamos de um novo modo de pensar, uma nova consciência, uma nova história cultural; só então conseguiremos obter as perguntas certas, vendo mais claramente quais necessidades precisam ser atendidas. Se entrarmos em ação sem nos questionarmos mais profundamente, provavelmente trataremos os sintomas em vez das causas. Isso prolongará e aprofundará a crise, ao invés de resolvê-la.

Até mesmo diferenças sutis no uso das palavras afetam a forma como co-criamos cultura. Por exemplo, referir-se aos processos naturais de limpeza da água, transformação da luz solar e do dióxido de carbono em biomassa, construção de solos férteis, estancamento de erosão ou regulação do clima como “serviços ecossistêmicos” (e.g. Costanza et al., 2013) é uma estratégia útil para garantir que esses serviços sejam incluídos em nossa contabilidade econômica e reconhecidos como a principal fonte de criação de valor na economia global.

Por outro lado - implicitamente - as palavras “serviços ecossistêmicos” carregam uma atitude utilitarista em relação à Natureza, como se esses processos fossem valiosos apenas enquanto prestam serviços à humanidade. O uso do termo “funções ecossistêmicas” reconhece que elas são funções vitais que permitem a evolução contínua da vida como um todo. Visões de mundo são criadas e transformadas ao prestar atenção em como moldamos experiências e reforçamos perspectivas através das palavras e metáforas que usamos.

A humanidade está enfrentando a crise terminal de uma visão de mundo desatualizada. Essa crise se manifesta de muitas maneiras diferentes; por exemplo, com um sistema econômico e monetário que não é adequado a propósito em um planeta superpovoado com recursos não renováveis em declínio. Em comunidades ao redor do mundo, podemos testemunhar colapso social como resultado da crescente desigualdade e do culto do individualismo competitivo.

Estamos enfrentando uma crise de governança, já que muitas das maiores economias do mundo não são mais definidas pela identidade nacional ou cultural, e tornaram-se corporações que buscam maximizar o lucro a curto prazo externalizando danos colaterais. Continuamos sendo desafiados por uma crise de extremismo religioso e guerra, já que tendemos a prestar mais atenção a nossas diferenças do que a nossa humanidade e destino em comum em um planeta em crise.

Teremos que redefinir como nos vemos e nos relacionamos uns com os outros e com o resto da comunidade da vida na Terra. Apenas mudando nossa narrativa cultural, podemos transformar nossa visão do futuro e curar nosso relacionamento com a vida como um todo. Como uma febre que atinge o pico e passa logo antes do paciente começar a se recuperar, as múltiplas crises não precisam ser consideradas como algo totalmente negativo. Podemos reformulá-las como uma “boa crise” (Pigem, 2009) se considerarmos os sinais óbvios de que a mudança e a transformação são inevitáveis e já estão começando, e se passarmos a ver as crises convergentes como desafios criativos para crescer e evoluir com consciência planetária.

[Este artigo é um excerto do meu livro “Designing Regenerative Cultures”, publicado pela Triarchy Press, 2016.]


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