O Que Os Superorganismos Podem Nos Ensinar Sobre Colaboração?

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Inhabitat é um site de disseminação de informações sobre design verde & sustentável. Como parte de seu editorial, eles criaram uma série sobre Biomimética. Isto é, a prática de se buscar inspiração para o design de produtos, serviços e sistemas da Natureza. Esta série se chama O Manual da Biomimética e nós do Emergir achamos importante traduzir um de seus textos essenciais, escrito pela bióloga evolucionária Dr. Tamsin Woolley-Barker. Confira o resultado abaixo.


Manual de Biomimética: O Que Os Superorganismos Podem Nos Ensinar Sobre Colaboração?

Quando penso em macacos, eu não penso neles morando no deserto; afinal, os primatas amam árvores, água, folhas grandes e suculentas, e frutas. Na verdade, apenas dois primatas decidiram passar pelo incômodo de ir até lá, e o babuíno-sagrado foi o primeiro. Com uma magnífica juba branca, rosto escarlate, e um sistema social bizarramente complexo, ele era uma musa sagrada dos antigos egípcios. Na vida após a morte, os egípcios acreditavam que a função do babuíno era devorar as almas dos mortos que fossem “malvados” - baita responsabilidade! O outro primata é nós. Ambos são colaboradores supremos, e, em qualquer lugar onde os recursos sejam escassos e imprevisíveis, as criaturas mais bem sucedidas são aquelas que trabalham em equipe. Esse tipo de colaboração é a habilidade que vamos explorar no capítulo de hoje do Manual de Biomimética!

Ants

As formigas e os cupins que constroem suas casas no deserto são todos ultra-sociais, passam seus dias coordenando cuidadosamente a construção de montes e ninhos elaborados, fazendas de fungos, rebanhos de pulgões, e trabalhando juntos em cidades movimentadas - assim como nós. Os biólogos se referem a todos nós como “superorganismos”: grupos sem os quais os indivíduos não sobrevivem sozinhos por muito tempo, todos têm um trabalho para fazer, e o todo é maior do que a soma de suas partes. Humanos e formigas devem colaborar entre si para sobreviver, é da nossa natureza. Mas os humanos vêm se divertindo com esse experimento superorganístico apenas por alguns milhões de anos. Nossas sociedades são principiantes ao lado das formigas, que colaboram há mais de 100 milhões de anos. Os fungos micelianos, que vivem no subsolo numa rede pulsante de hifas interconectadas, nos superam: eles fazem isso há mais de um bilhão de anos. À medida que os recursos se tornam mais escassos, e os preços, as cadeias de suprimento, a geopolítica, e os climas se tornam menos previsíveis, é aconselhável que estudemos essas ultra-sociedades ancestrais. Será que poderíamos descobrir a matemática evolutiva deles e fazer com que ela funcione para o nosso próprio modo de vida?

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Humans

Os seres humanos se dão surpreendentemente bem em qualquer lugar. As condições de escassez e imprevisibilidade nunca nos incomodaram muito, desde que tenhamos abrigo, ferramentas, conhecimento, e um ao outro. Conseguimos passar por alguns períodos geológicos selvagemente gelados desta maneira - o que é bastante impressionante, considerando que não temos pêlos nem presas (e apenas duas pernas? Que falta de resiliência inata! Perca uma delas e você se torna um monopé!). Mas de alguma forma, juntos, nós sobrevivemos tudo isso. Desde que o Homo erectus competia contra carnívoros profissionais com sucesso, como leões e hienas (e isso sem garras afiadas, caninos pontudos, velocidade, ou peles protetoras), temos sido uma sociedade de superorganismos. Nós fizemos isso colaborando; com ferramentas e sinais, com persistência e experiência. Juntos, procuramos por colméias, cavamos água, e lembramos onde as melhores raízes e bagas do ano passado foram encontradas.

E funcionou. Hoje, o Homo sapiens ocupa todos os cantos da Terra, alterando todos os habitats que tocamos. Tenho certeza de que as outras espécies nos adicionariam à Lista das Espécies Mais Invasivas se pudessem. Mas por que formigas não estão engasgando com a poluição e não estão presas no tráfego? Por que os fungos não contam créditos de carbono e não se preocupam com a Grande Faixa de Lixo no Pacífico? Os cupins têm favelas? O que eles sabem que não sabemos?

mole

O meu trabalho é tentar desvendar tudo isso: sou uma tradutora de Inovação Interespécies. Eu descubro como outras espécies fazem as coisas, e ajudo os não-biólogos a usarem essas ideias para fazerem as coisas de maneira diferente. Afinal, 30 milhões de espécies gastaram bilhões de anos criando maneiras de viver tranquilamente neste planeta, resolvendo exatamente os mesmos problemas que nós temos. Se suas soluções não são sustentáveis, elas evoluem ou desaparecem. Então, quando eu preciso de conselhos sobre questões sociais espinhosas, eu pergunto aos profissionais: formigas, cupins, vespas, fungos micelianos, e ratos-toupeira são bem sucedidos porque dividem suas tarefas para formar uma entidade parecida com uma ameba, agindo como uma única criatura super-poderosa. Todos têm níveis fantasticamente complexos de comunicação, flexibilidade, eficiência, e organização. Nas palavras do micologista Paul Stamets, eles são “criaturas em rede”. Eles têm uma vantagem surpreendente sobre outras espécies.

Esses superorganismos podem ser bem-sucedidos, às vezes até demais - 14 das 100 Espécies Mais Invasivas (incluindo formiga-de-fogo, vespas, e formigas argentinas) são superorganismos. Mas vejam o que acontece quando o programa roda por muito tempo: depois de um bilhão de anos, temos fungos miceliais tão conectados que seus próprios corpos formam uma rede subterrânea. Eles não usam essa rede apenas para si mesmos; eles a usam para trazer nutrientes, água e sinais para 70% das plantas vasculares. Eles estão apoiando ativamente, se não cultivando, uma vasta proporção da base de alimentos do nosso planeta, enquanto atuam como uma rede global para eles - a Wood Wide Web (Grande Rede de Árvores), como Janine Benyus a chama.

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É claro que os fungos levaram um bilhão de anos para evoluir suas sociedades, e esse tipo de tempo é algo que não temos. Os verões ficam mais quentes, vórtices polares mais ferozes, e furacões e inundações e secas mais severas. Podemos descobrir como evoluir rápido o suficiente? A máquina petro industrial global e sua infinita gama de incentivos perversos nos mantêm circulando em torno de um ralo que nós mesmos fabricamos. Como minha amiga Dr. Jamie Brown-Hansen diz, enquanto as árvores crescerem mais lentamente do que os juros compostos, continuaremos transformando coisas vivas em dinheiro até que não sobre nada. Parece uma solução fácil.

Bushman

Mas, apesar de sermos novatos no Clube de Criaturas Conectadas, nós, humanos, aprendemos rápido: é isso que os superorganismos fazem. É por isso que pessoas e formigas correm soltas por este planeta tão facilmente. Todas as formigas vivas, se você as amarrasse em um saco colossal de Papai Noel, pesariam o mesmo que todas as pessoas vivas amarradas em outro saco. Juntos, esses dois sacos pesam 16 vezes mais do que um saco de todos os outros vertebrados selvagens terrestres combinados. Então, acho que estamos fazendo algo certo. E os humanos têm alguns truques de aceleração de inovação que as formigas não têm (não tenho tanta certeza sobre fungos - quanto você acha que o saco deles pesa?). Primeiro, não nos limitamos à simples adaptações genéticas, uma lenta geração de cada vez. Podemos passar nossas inovações para o lado, pelas costas, sobre a cabeça, e acertar na cesta de basquete; de amigos para vizinhos para pessoas que nem conhecemos. As idéias humanas transcendem gerações, fronteiras, religiões, e até espécies. Temos uma capacidade poderosa de inovar as coisas e imitar o que funciona. É rápido, é viral, e estamos chegando lá. Se pudermos entender as regras simples que outros superorganismos usam para criar suas redes adaptativas, acredito que também poderíamos usá-las e obter a mudança rápida da qual precisamos. De certa forma nós já criamos nossas próprias redes fúngicas miceliais e rastros de feromôneos. Com as redes de internet e celular funcionando, já estamos fazendo coisas semelhantes ao deles.

Nossa segunda vantagem é o que o antropólogo cultural corporativo Robin Sol chama de “mas-e-se”: a capacidade de imaginar o que algo poderia ser, e de fazê-lo acontecer. Se conseguimos imaginar algo, podemos fazer a engenharia reversa disso e começar do início. Isso é o que as pessoas fazem. Às vezes, ficamos à frente de nós mesmos, mas muitas vezes chegamos exatamente onde precisamos estar. Eu gosto de imaginar que os fungos antigos, depois de descobrir o modo de vida super-organísmico, podem ter caído nos mesmos tipos de buracos que estamos hoje. E, assim como nós, eles causaram uma devastação incalculável em todos os ecossistemas que eles tocaram quando se espalharam. Hoje, no entanto, esses inovadores disruptivos fornecem suporte de vida para todos nós, terráqueos, porque em algum lugar ao longo da linha, eles descobriram que ajudando os outros, eles também ajudariam a si mesmos. Eu gosto de pensar que estamos descobrindo isso também. E, se podemos imaginar, podemos transformá-lo em realidade.

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